Balthazar Korab e a enchente de Florença de 1966
Em 4 de novembro de 1966, o fotógrafo húngaro-americano Balthazar Korab estava de ano sabático na Itália quando ouviu, pelo rádio, que o rio Arno tinha subido durante a noite e estava inundando Florença. Ele não era repórter nem fotojornalista de guerra. Era um fotógrafo especializado em arquitetura, conhecido por registrar obras de Le Corbusier, Mies van der Rohe e Eero Saarinen. Mesmo assim, pegou a câmera, entrou na água até o peito e caminhou até o centro histórico da cidade para fotografar o que estava acontecendo. Sessenta anos depois, essas imagens estão no acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e ajudam a entender algo que vale para qualquer pessoa que fotografa hoje: a fotografia documental (o registro de fatos reais, sem montagem, no momento em que eles acontecem) muitas vezes nasce de quem simplesmente estava lá, câmera em punho, quando o inesperado aconteceu. Este texto reconstrói o episódio com base no acervo da própria Biblioteca do Congresso e explica o que ele ensina sobre documentar, arquivar e preservar o próprio trabalho fotográfico.
Quem foi Balthazar Korab?
Balthazar Korab foi um fotógrafo húngaro-americano especializado em arquitetura, nascido em Budapeste em 1926 e falecido em 15 de janeiro de 2013. Formou-se em arquitetura na École des Beaux-Arts, em Paris, em 1954, e depois se mudou para os Estados Unidos, onde construiu carreira fotografando obras de alguns dos nomes mais importantes da arquitetura moderna.
Seu trabalho está espalhado por edifícios que qualquer entusiasta de arquitetura reconheceria. A tabela abaixo reúne alguns dos arquitetos e obras que ele fotografou ao longo da carreira.
| Arquiteto | Obra fotografada | Local |
|---|---|---|
| Le Corbusier | Carpenter Center e Unité d’Habitation | Universidade Harvard (EUA) e Marselha (França) |
| Mies van der Rohe | Galeria Nacional de Berlim e Museu de Belas Artes de Houston | Berlim (Alemanha) e Houston (EUA) |
| Louis Kahn | Instituto Salk e Museu Kimbell de Arte | La Jolla e Fort Worth (EUA) |
| Frank Lloyd Wright | Museu Guggenheim | Nova York (EUA) |
| Eero Saarinen | Terminal da TWA, Aeroporto de Dulles, Gateway Arch e GM Technical Center | Diversas cidades dos EUA |
| Minoru Yamasaki | World Trade Center | Nova York (EUA) |
Em 1966, porém, Korab não estava atrás de nenhum desses nomes. Estava em licença sabática, morando na Itália, e colaborava com a arquiteta e pesquisadora Astra Zarina em um projeto sobre os telhados de Roma, fotografados ao longo de mais de uma década e reunidos depois no livro I Tetti di Roma. Foi nesse período, longe do trabalho que o tornaria conhecido, que ele se viu diante de uma das maiores catástrofes culturais da Europa no século XX.
O que aconteceu na enchente de Florença em novembro de 1966?
Na noite de 3 de novembro de 1966, uma chuva longa e intensa ao norte de Florença somou-se à liberação de mais de 2.000 metros cúbicos de água por segundo pelas represas de Levane e La Penna, no Valdarno. A combinação sobrecarregou a infraestrutura da região. Na madrugada de 4 de novembro, a água do rio Arno já chegava aos arredores da cidade, e por volta do meio da manhã o centro histórico de Florença estava submerso.
A altura da água passou de 6,7 metros na região de Santa Croce, uma das mais baixas da cidade. As ruas estreitas do centro histórico, que normalmente dão charme à cidade, funcionaram como canais e aumentaram a velocidade da correnteza. Cerca de 20.000 carros foram submersos, mais de 6.000 lojas foram destruídas e mais de 70.000 famílias ficaram desabrigadas. Óleo de combustível doméstico, usado para aquecer as casas no inverno, misturou-se à lama e à água, piorando os danos a tudo que a enchente tocava.
O dano ao patrimônio cultural foi o que tornou o episódio uma referência até hoje para quem trabalha com preservação de acervos. A Biblioteca Nacional Central de Florença perdeu cerca de 1,3 milhão de itens, praticamente um terço de todo o seu acervo, para a água. Na Biblioteca do Gabinetto Vieusseux, os 250.000 volumes foram danificados. A Galeria Uffizi, o Museu Galileo, o Arquivo de Estado e o arquivo da Opera del Duomo também tiveram coleções atingidas. No total, estima-se que entre 3 e 4 milhões de livros e manuscritos e cerca de 14.000 obras de arte móveis sofreram algum tipo de dano.
Como Korab registrou a enchente estando de férias na Itália?
Korab e a família estavam em Settignano, uma pequena cidade a nordeste de Florença, quando ouviram no rádio que o Arno estava subindo. A esposa, Monica, dirigiu até perto do centro histórico, e dali ele seguiu a pé, às vezes com a água na altura do peito, para fotografar o que estava diante dele.
As imagens que resultaram desse dia mostram carros arrastados pela correnteza, pessoas atravessando ruas alagadas e, depois que a água baixou, a Ponte Vecchio coberta de detritos e com danos visíveis na estrutura. Uma das fotos registra um homem carregando um colchão inflável por uma rua ainda alagada, uma cena que resume bem o tipo de registro que Korab fez: não uma composição arquitetônica planejada, mas um flagrante do caos de uma cidade tentando se manter de pé.
Em 1967, ele voltou a Florença e fotografou o tradicional jogo de calcio storico na Piazza Santa Croce, com os andaimes de reparo da Ponte Vecchio ainda visíveis ao fundo. É um detalhe que só faz sentido para quem conhece o contexto: a vida da cidade seguia, mas as marcas da enchente ainda estavam ali, um ano depois.
Por que as fotos de um fotógrafo de arquitetura se tornaram um documento histórico?
Elas importam porque foram feitas por alguém treinado a olhar para estrutura, luz e espaço, mesmo em uma situação de emergência, sem qualquer intenção de registrar história no momento em que apertou o obturador. Korab não planejou fotografar uma enchente. Estava no lugar certo, com a câmera certa, e decidiu documentar em vez de apenas observar.
Esse padrão se repete em boa parte das fotos que se tornaram símbolos de um momento histórico. A foto Migrant Mother, de Dorothea Lange, nasceu de um encontro de poucos minutos em um acampamento de trabalhadores rurais durante a Grande Depressão, sem qualquer planejamento de que aquela imagem se tornaria símbolo de uma geração inteira.
O mesmo vale para a foto da hasteada da bandeira em Iwo Jima, feita por um fotógrafo que acompanhava tropas em combate sem saber que aquele quadro específico se tornaria um dos símbolos mais reproduzidos da Segunda Guerra Mundial. Em ambos os casos, o valor histórico da imagem só ficou claro depois, quando o contexto deu a ela um peso que ninguém podia prever no instante do disparo.
Korab também não sabia, naquela manhã em Florença, o que aquelas fotos significariam seis décadas depois.
Isso não diminui o mérito de quem fotografou. Pelo contrário: reconhecer uma cena que merece ser registrada, mesmo sem saber o que ela vai significar no futuro, é uma habilidade que se desenvolve com prática e repertório visual, não algo que acontece por acaso puro.
O que fotografar uma tragédia em andamento exige de quem está com a câmera na mão?
Exige, antes de tudo, uma decisão ética sobre o que fotografar e como se aproximar das pessoas envolvidas, sem transformar o sofrimento alheio em espetáculo. Korab fotografou objetos, estruturas e cenas urbanas, carros arrastados, a ponte danificada, um homem com um colchão inflável, mantendo uma distância respeitosa das pessoas que estavam vivendo a tragédia de perto.
Do ponto de vista técnico, cenas de desastre em andamento costumam ter pouca luz, chuva ou neblina de água suspensa no ar e muito movimento imprevisível. Um fotógrafo documental em uma situação parecida hoje, cobrindo uma enchente urbana no Brasil, por exemplo, normalmente abre o diafragma para algo como f/2.8 e sobe o ISO para a faixa de ISO 800 a ISO 1600, de forma a manter uma velocidade do obturador segura, como 1/250 s, suficiente para congelar uma pessoa cruzando a correnteza ou um objeto sendo arrastado, mesmo sem tripé e sem tempo para ajustar a câmera com calma.
Também exige disposição para perder o controle da composição. Em uma sessão de retrato em estúdio ou em um ensaio externo, o fotógrafo escolhe o ângulo, a luz e o momento. Em uma enchente, a cena escolhe o fotógrafo: a prioridade passa a ser registrar o que está acontecendo antes que a oportunidade desapareça, não buscar o enquadramento perfeito.
Onde estão as fotos hoje, e o que isso ensina sobre arquivar o próprio trabalho?
As fotos de Korab sobre a enchente de Florença fazem parte da Coleção Balthazar Korab, mantida pela Divisão de Impressos e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, um acervo com mais de 540.000 imagens, a maioria de arquitetura norte-americana. Segundo o blog Picture This, da própria instituição, publicado em 4 de novembro de 2026 para marcar os sessenta anos da enchente, “sessenta anos atrás hoje, na manhã de 4 de novembro de 1966” o Arno começou a inundar a cidade, data confirmada de forma independente também pela Wikipédia em inglês sobre o episódio.
O fato de essas fotos terem sobrevivido, catalogadas e identificáveis seis décadas depois, não é acidente. É resultado de um arquivo organizado, com identificadores específicos para cada imagem, como o registro ds.10632 para a cena do rio Arno durante a enchente e o ppmsca.72249 para uma escultura danificada que Korab fotografou na ocasião. Para qualquer fotógrafo, amador ou profissional, isso é um lembrete prático: uma foto importante só continua acessível no futuro se tiver nome de arquivo, data e contexto registrados no momento em que foi feita, não guardada solta em um cartão de memória sem legenda. Catalogar o próprio acervo no mesmo cuidado que arquivistas dedicam a coleções históricas é o que separa uma foto esquecida de um registro que ainda importa décadas depois.
O que os Mud Angels de Florença têm a ver com a forma como você cuida do seu acervo?
Os Mud Angels, ou angeli del fango em italiano, foram os voluntários, muitos deles estudantes de diferentes países, que passaram meses limpando e salvando livros, manuscritos e obras de arte atingidos pela enchente. Livros foram lavados, prensados e secos na estação ferroviária de Florença antes de serem reencadernados. Conservadores estrangeiros viajaram até a cidade para ajudar, e parte desse trabalho, segundo o relato da Biblioteca do Congresso, chegou a influenciar conservadores que depois atuaram no próprio escritório de preservação da instituição americana, hoje chamado de Diretoria de Preservação.
A lição para quem fotografa é direta: um acervo, seja de livros antigos ou de fotos digitais, não se preserva por conta própria. Ele exige manutenção ativa, backup em mais de um lugar e, no caso de fotos, catalogação no Adobe Lightroom ou em outro gerenciador que mantenha metadados, palavras-chave e histórico de edição organizados. A diferença entre o trabalho dos Mud Angels em 1966 e o backup automático de hoje é de escala e de tecnologia, não de princípio. Em ambos os casos, alguém precisa decidir, antes que o desastre aconteça, que aquele material vale a pena ser salvo.
Essa mesma lógica de preservação aparece em outros arquivos que só se tornaram parte da história da fotografia porque alguém cuidou de guardar o material com atenção.
É o caso do trabalho da fotógrafa brasileira Claudia Andujar junto ao povo yanomami, hoje preservado como um dos registros documentais mais importantes já feitos no Brasil.
É também o caso das imagens reunidas no projeto sobre a crise do Dust Bowl nos Estados Unidos dos anos 1930, guardadas em acervos públicos pela mesma razão: alguém decidiu, a tempo, que aquele material precisava sobreviver.
Conclusão
A história de Balthazar Korab em Florença mostra que a fronteira entre um fotógrafo de arquitetura e um fotógrafo documental pode desaparecer em uma manhã, quando a realidade exige mais do que o profissional estava planejando entregar naquele dia. O que ficou de 4 de novembro de 1966 não foi apenas um conjunto de fotos de uma enchente, mas um registro de como uma cidade inteira, e as instituições que guardam sua memória, reagiram a uma perda quase irreparável. Para quem fotografa hoje, a lição que atravessa os sessenta anos não é sobre equipamento ou técnica, mas sobre dois hábitos simples: estar pronto para registrar o que acontece diante da câmera, mesmo sem saber o que aquilo vai significar depois, e cuidar do próprio acervo com a mesma seriedade que levou essas fotos de Florença até um dos maiores arquivos fotográficos do mundo.
Perguntas frequentes
Quem foi Balthazar Korab?
Korab foi um fotógrafo húngaro-americano especializado em arquitetura, nascido em Budapeste em 1926 e falecido em 2013, conhecido por fotografar obras de Le Corbusier, Mies van der Rohe, Louis Kahn, Frank Lloyd Wright, Eero Saarinen e Minoru Yamasaki ao longo da carreira nos Estados Unidos.
Por que um fotógrafo de arquitetura fotografou uma enchente?
Porque ele estava no lugar certo na hora errada: em 1966, Korab morava na Itália em um ano sabático e presenciou a enchente do rio Arno em Florença de perto, decidindo documentar a cena mesmo sem ser esse o seu trabalho habitual.
As fotos de Korab sobre a enchente de Florença estão disponíveis para o público?
Parte do acervo já está catalogada e identificada pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, mas, segundo o blog oficial da instituição, nem todas as imagens sobre a enchente haviam sido publicadas on-line até a data deste artigo.
O que foram os Mud Angels de Florença?
Foram os voluntários, muitos deles estudantes estrangeiros, que ajudaram a limpar e recuperar livros, manuscritos e obras de arte danificados pela enchente de 1966, trabalho que levou meses e influenciou práticas de conservação usadas até hoje.
Onde posso ver o acervo fotográfico de Balthazar Korab?
O acervo completo, com mais de 540.000 imagens, está sob a guarda da Divisão de Impressos e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que também mantém o blog Picture This com destaques do material.


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