Nan Goldin e o livro que fez da própria vida um clássico

Mesa de madeira à noite com folhas de papel em branco, um caderno e uma xícara, iluminada por luzes amarelas desfocadas ao fundo

Em 1986, a fotógrafa norte-americana Nan Goldin publicou pela editora Aperture um livro com 127 fotos tiradas dentro do próprio apartamento e da vida dos amigos, ao longo de sete anos. The Ballad of Sexual Dependency entrou para a tradição do livro de fotografia como registro de época e ainda serve de referência para quem fotografa a própria vida.

Sete anos fotografando a própria tribo

Entre 1979 e 1986, Nan Goldin fotografou os amigos mais próximos em Nova York: a cena pós-punk, No Wave e queer do Bowery e do Lower East Side. Registrava festas, brigas, sexo e também os momentos quietos entre um grupo pequeno de pessoas, sem preparar cena nem pedir pose. O material nasceu como um slideshow com trilha sonora, mostrado para os amigos em festas particulares, antes de virar público em 1985 no Whitney Museum of American Art, na Bienal do Whitney. O slideshow completo somava mais de 700 imagens.

Em 1986, a editora Aperture reduziu o material a 127 fotos e publicou o livro The Ballad of Sexual Dependency, com edição de Marvin Heiferman, Mark Holborn e Suzanne Fletcher. O título veio de uma canção da Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht. Sobre o próprio trabalho, Goldin escreveu na publicação: “a memória real que essas fotos evocam é a cor, o cheiro, o som e a densidade da vida.”

A Aperture relançou uma edição revista do livro em 2012, ainda em catálogo. O trabalho também aparece hoje catalogado pelo Instituto Moreira Salles, em levantamento sobre fotolivros históricos feitos por mulheres entre 1843 e 1999, ao lado de nomes como Diane Arbus e Berenice Abbott. Quase quarenta anos depois da primeira exibição pública, o livro continua sendo o exemplo mais citado de projeto fotográfico construído a partir da vida de quem fotografa, não de um evento isolado.

Por que isso importa para quem fotografa hoje

O projeto de Goldin funcionou por causa de acesso e tempo, construídos antes da câmera entrar em cena. Ela morava com quem fotografava, ia às mesmas festas, dormia nas mesmas casas. É o mesmo princípio que separa a foto de casamento posada da foto que mostra o que de fato aconteceu naquele dia: confiança construída antes do clique, não durante ele. É também a base da fotografia documental. Numa cerimônia às 17h ou num ensaio em família, a foto que sobra depois de alguns anos raramente é a pose no altar. Costuma ser o instante em que ninguém estava olhando para a câmera.

Tecnicamente, Goldin trabalhava em ambientes internos escuros, com a luz que já existia na sala, sem montar iluminação extra. Hoje, em vez de disparar o flash automático de frente para o rosto de alguém numa sala mal iluminada, vale testar uma velocidade de obturador mais lenta, 1/30 ou 1/15, apoiando o cotovelo numa mesa ou o celular num móvel firme, e deixar a luz da lâmpada ou da janela fazer o trabalho. Se a foto ainda sair escura, suba o ISO para 1600 ou 3200 antes de recorrer ao flash de frente: o grão que aparece incomoda muito menos do que um rosto estourado de luz dura.

Vale também notar o que Goldin não fez. Não posou o grupo olhando para a câmera, não pediu para ninguém sorrir e não interrompeu a cena para ajustar o enquadramento: a câmera ficava por perto o tempo todo, pronta para uso, o que é uma questão de rotina, não de talento. Levar a câmera ou o celular destravado para dentro da própria casa ou do próprio evento, em vez de guardado na bolsa entre um clique e outro, aumenta a chance de registrar o momento que normalmente escapa.

O outro ponto é a edição. De mais de 700 imagens do slideshow original, o livro publicado ficou com 127. Ninguém publica sem cortar. Depois de um mês fotografando o mesmo grupo, revisar tudo e anotar o ISO usado em cada imagem ajuda a entender o que funcionou, e a descartar sem dó o que não carrega nada além de estar em foco.

Sala de estar escura à noite, iluminada apenas por um abajur de chão, com poltrona vazia e janela mostrando prédios iluminados

O que dá para experimentar

  • Escolha um grupo fixo (família, banda, equipe de trabalho, amigos de sempre) e fotografe as mesmas pessoas por 30 dias seguidos, sem pedir pose nem avisar antes do clique.
  • Em ambiente interno à noite, desligue o flash automático do celular e teste o modo noturno apoiado numa superfície firme, em vez de disparar luz direto no rosto de quem está sendo fotografado.
  • Deixe a câmera ou o celular destravado e por perto durante um jantar, uma viagem curta ou uma tarde em família, em vez de guardado na bolsa entre uma foto e outra.
  • No fim do mês, faça um corte duro: de 150 ou 200 fotos, guarde só 15. Elimine qualquer imagem que só existe porque a câmera estava na mão.
  • Escreva uma linha sobre cada foto guardada no mesmo dia em que foi tirada, antes que o contexto se perca.
  • Organize as fotos escolhidas em uma sequência, por ordem de horário ou de clima do encontro, e veja se uma história aparece sozinha.

O livro de Goldin virou referência por documentar uma comunidade inteira ao longo de anos, não por ter uma única foto perfeita. Nenhuma das 127 imagens escolhidas dependeu de equipamento caro: dependeu de acesso, de rotina e de um corte editorial rigoroso no final. Se você fotografa eventos, família ou o próprio grupo de amigos, o próximo passo é revisar o que já foi fotografado com o olhar de quem edita, não de quem só dispara. Para levar esse hábito também para as redes, vale conferir como funciona a curadoria de feed pensada para manter consistência ao longo do tempo.

Apaixonado por fotografia e arte. Escrevo no Mundo das Fotos sobre o que se aprende errando: luz, lente, composição e as decisões que mudam a foto antes de apertar o botão. Se você está saindo da automática, é para você que eu escrevo.

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