Claudia Andujar: quem foi a fotógrafa dos Yanomami
Em uma aldeia na floresta amazônica, no início dos anos 1980, uma equipe de saúde caminha entre casas comunais aplicando vacina contra sarampo. Cada pessoa vacinada recebe uma plaqueta numerada pendurada no pescoço, porque a maior parte dos Yanomami não tinha nome registrado em nenhum sistema oficial brasileiro. Atrás da equipe, uma fotógrafa suíça naturalizada brasileira registra os rostos, um a um, com aquela numeração visível junto ao corpo. As imagens viram a série “Marcados” e, décadas depois, ainda incomodam quem vê pela primeira vez essa mistura de urgência sanitária e denúncia política. Essa fotógrafa é Claudia Andujar, e a obra dela ocupa um lugar raro na história da fotografia: câmera como instrumento científico, artístico e de defesa de direitos, ao mesmo tempo.
Este texto reconstrói a trajetória de Andujar a partir do acervo público mantido pelo Instituto Moreira Salles (IMS), guardião oficial de seu trabalho, explica as técnicas fotográficas que ela desenvolveu ao longo de décadas na Amazônia e mostra por que essa história interessa a qualquer pessoa que fotografa, não só a quem estuda etnofotografia.
Quem foi Claudia Andujar?
Claudia Andujar nasceu na Suíça em 1931 e se mudou para o Brasil em 1955. Antes de se dedicar à Amazônia, ela trabalhou como fotógrafa e repórter para a revista Realidade entre 1966 e 1971, um dos veículos mais importantes do fotojornalismo brasileiro no período. Foi justamente uma pauta da revista, em 1971, que a levou pela primeira vez ao contato com o povo Yanomami, na região do Catrimani, em Roraima. O encontro mudou o rumo do seu trabalho pelas cinco décadas seguintes.
Diferente de um fotojornalista de passagem, Andujar retornou à Terra Yanomami repetidas vezes ao longo dos anos 1970 e 1980, período que antecedeu a demarcação oficial do território. Essa permanência é o que separa reportagem pontual de projeto documental de longo prazo: ela não fotografou um evento, fotografou uma relação construída ano após ano.
Essa insistência em voltar ao mesmo lugar, ano após ano, coloca Andujar numa linhagem de mulheres que usaram a câmera para registrar o que ninguém mais estava documentando, categoria que remonta a nomes como Anna Atkins, considerada autora do primeiro livro ilustrado com fotografias, ainda no século XIX. A diferença é que Andujar não documentava espécimes botânicos: documentava um povo sob ameaça direta de extinção cultural e física.
Como a fotografia infravermelha entra na obra dela?
A fotografia infravermelha registra uma faixa de luz que o olho humano não enxerga, usando filme (ou, hoje, sensor) sensível a esse comprimento de onda em vez de à luz visível comum; o resultado são tons e contrastes que fogem do que uma câmera convencional captaria na mesma cena. Andujar recorreu a esse filme especial e também à dupla exposição, técnica em que duas cenas são registradas no mesmo quadro, sobrepondo camadas de imagem.
Na prática, esses recursos não eram efeito decorativo. Combinados, infravermelho e dupla exposição deixavam a floresta com cores que remetem ao estado alterado de percepção descrito por pajés Yanomami durante rituais com yãkoana, o pó xamânico inalado em cerimônias. Andujar buscava aproximar visualmente quem via a fotografia de uma cosmovisão que a linguagem documental tradicional, em preto e branco e foco nítido, não dava conta de traduzir. É um raro caso em que a escolha técnica carrega, sozinha, parte do argumento do projeto.
Esse experimentalismo já aparece em 1978, quando Andujar publica o fotolivro Amazônia em parceria com o artista George Love. O livro reúne imagens que misturam floresta, corpo e ritual num vocabulário visual que rompe com o padrão de reportagem em preto e branco então dominante no fotojornalismo brasileiro. É um projeto anterior a “Marcados” e ajuda a explicar por que Andujar não tratava infravermelho e dupla exposição como recurso isolado: para ela, técnica e tema caminhavam juntos desde o início do trabalho na Amazônia.
Vale lembrar que esse tipo de manipulação da cor exige entendimento do funcionamento básico da câmera e da relação entre luz e material sensível, seja filme, seja sensor digital. Sem esse domínio técnico, o argumento visual da série simplesmente não existiria.
O que foi a série “Marcados”?
“Marcados” nasceu de uma necessidade prática: durante campanhas de vacinação contra sarampo e poliomielite na década de 1980, equipes de saúde precisavam identificar quem já havia sido imunizado. Como muitos Yanomami se reconheciam por grau de parentesco e não por nome civil ocidental, cada pessoa recebia uma plaqueta numerada pendurada no pescoço. Andujar fotografou esse processo, publicando as primeiras imagens em 1982, junto a textos de sua autoria, num relatório da Comissão pela Criação do Parque Yanomami.
O que começou como registro administrativo virou uma das séries mais discutidas da fotografia brasileira, porque expõe, sem retoque, a tensão entre cuidar de uma população vulnerável e reduzi-la a um número numa ficha. Andujar não escondeu esse desconforto: fez dele o tema central da série, numa época em que discutir identidade e catalogação de pessoas ainda não era pauta comum na fotografia documental.
Por que o trabalho de Andujar virou ativismo político?
O trabalho de Andujar deixou de ser só registro fotográfico quando ela passou a atuar diretamente pela demarcação da Terra Yanomami. Em 1977, durante a ditadura militar, ela foi expulsa do território pela Funai, então sob controle de setores que defendiam a abertura da Amazônia a garimpo e colonização. Em vez de recuar, Andujar ajudou a fundar, em 1978, a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), organização que reuniu fotografia, articulação política e mobilização internacional numa única frente.
A demarcação da Terra Indígena Yanomami só se concretizou em 1992, catorze anos depois da criação da comissão. Não é exagero dizer que o acervo fotográfico de Andujar funcionou como prova visual num processo essencialmente político: cada imagem publicada em jornal, exposição ou relatório reforçava um argumento que, de outra forma, dependeria só de relatórios técnicos e mapas.
Onde está o acervo de Claudia Andujar hoje?
Desde 2023, o Instituto Moreira Salles é responsável por preservar e difundir o acervo de Claudia Andujar, um conjunto com mais de 40 mil fotogramas, além de livros e documentos que cobrem todas as fases da carreira dela. Antes disso, em 2019, o IMS já havia dedicado à fotógrafa a retrospectiva “Claudia Andujar: a luta Yanomami”, com cerca de 200 imagens e uma instalação audiovisual, com curadoria de Thyago Nogueira.
O reconhecimento internacional veio em paralelo: Andujar recebeu bolsas da Fundação Guggenheim em 1971 e 1977, foi condecorada com a Medalha Goethe pelo governo alemão em 2018, e teve mostras itinerantes em instituições como o The Shed, em Nova York, entre 2023 e 2024. Para quem quer estudar composição, uso de luz e narrativa visual em fotografia documental, o acervo do IMS é hoje a fonte primária mais completa sobre o trabalho dela.
Cronologia essencial da obra de Claudia Andujar
A tabela reúne os marcos que aparecem ao longo deste texto, para consulta rápida.
| Ano | Marco | Por que importa |
|---|---|---|
| 1931 | Nascimento na Suíça | Ponto de partida de uma trajetória que passaria por vários países antes do Brasil |
| 1955 | Chegada ao Brasil | Início da carreira fotográfica em território brasileiro |
| 1966-1971 | Atuação na revista Realidade | Formação como fotojornalista em um dos veículos mais influentes da época |
| 1971 | Primeiro contato com os Yanomami, no Catrimani (RR) | Marco zero do projeto que ocuparia o resto da carreira dela |
| 1977 | Expulsão do território pela Funai | Momento em que o registro fotográfico se transforma em ativismo declarado |
| 1978 | Cofundação da Comissão pela Criação do Parque Yanomami | Início da articulação política formal pela demarcação da terra indígena |
| 1981-1983 | Produção da série “Marcados” | Um dos conjuntos mais estudados da fotografia documental brasileira |
| 1992 | Demarcação da Terra Indígena Yanomami | Resultado concreto de quinze anos de mobilização com apoio das fotografias |
| 2018 | Medalha Goethe, do governo alemão | Reconhecimento internacional formal do trabalho |
| 2019 | Retrospectiva “A luta Yanomami”, no IMS Rio | Cerca de 200 imagens reunidas, com curadoria de Thyago Nogueira |
| 2023 | IMS assume a guarda do acervo (mais de 40 mil fotogramas) | Garantia de preservação de longo prazo do conjunto da obra |
O que fotógrafos documentais podem aprender com Claudia Andujar?
A obra de Andujar mostra três decisões que valem para qualquer projeto documental, de uma cobertura de rua a um ensaio de longo prazo. Primeiro, tempo: ela levou anos retornando ao mesmo território, o que permitiu registrar mudanças que uma visita única jamais capturaria. Segundo, técnica a serviço do argumento: infravermelho e dupla exposição não foram escolhas estéticas soltas, serviram para aproximar o espectador de uma experiência cultural específica. Terceiro, responsabilidade sobre a própria imagem: ao fotografar as plaquetas numeradas em “Marcados”, ela optou por expor o desconforto do processo, em vez de esconder o lado burocrático e desumanizante de uma campanha de saúde bem-intencionada.
Esse tipo de decisão editorial, sobre o que mostrar e o que a imagem revela sobre quem fotografa, é o que separa um álbum de viagem de um projeto documental com peso histórico. É também o que aproxima a fotografia de Andujar de outras trajetórias que uniram câmera e causa, como a de Sebastião Salgado na documentação de grandes deslocamentos humanos.
Outro paralelo possível é com Letizia Battaglia, que fotografou a máfia siciliana sob risco pessoal direto. Em ambos os casos, a câmera funciona como ferramenta de denúncia, não só de registro estético, o que ajuda a explicar por que esse tipo de acervo interessa muito além do público de fotografia.
Perguntas frequentes
Claudia Andujar era fotojornalista ou fotógrafa documental?
Ela começou como fotojornalista, na revista Realidade, entre 1966 e 1971, mas o trabalho com os Yanomami, sustentado por décadas, se enquadra melhor como fotografia documental de longo prazo, já que ultrapassa a lógica de pauta única do fotojornalismo tradicional.
Dá para fazer fotografia infravermelha sem equipamento profissional?
Sim, existem duas abordagens gerais: usar filtros de infravermelho acoplados à lente de uma câmera comum, técnica mais acessível mas que exige tempos de exposição mais longos, ou converter uma câmera digital para captar só a faixa infravermelha, processo permanente feito por assistências especializadas. Cada opção tem custo e resultado diferentes, e vale pesquisar qual se encaixa no equipamento que você já tem antes de investir.
O que significa dupla exposição em fotografia?
Dupla exposição é a sobreposição de dois registros num único quadro, seja pela exposição repetida do mesmo filme, seja, na fotografia digital, por composição em edição. Claudia Andujar usou a técnica para misturar elementos da floresta e da figura humana numa só imagem, criando camadas visuais que remetem a estados de percepção alterada.
Onde posso ver as fotografias de Claudia Andujar hoje?
O acervo principal está sob guarda do Instituto Moreira Salles desde 2023, com mais de 40 mil fotogramas catalogados. Além do acervo permanente, o trabalho circulou em exposições internacionais entre 2023 e 2024, incluindo mostra no The Shed, em Nova York.
A fotografia de Claudia Andujar ajudou mesmo na demarcação da Terra Yanomami?
As imagens fizeram parte de uma estratégia mais ampla de mobilização, ao lado de relatórios técnicos e articulação política da Comissão pela Criação do Parque Yanomami, cofundada por ela em 1978. A demarcação oficial saiu em 1992, e o próprio IMS credita ao conjunto do trabalho fotográfico e ativista de Andujar um papel relevante nesse processo.
Qual a diferença entre a série “Marcados” e o restante da obra de Andujar na Amazônia?
Enquanto boa parte do trabalho dela usa infravermelho e dupla exposição para aproximar o espectador de uma cosmovisão Yanomami, “Marcados” é mais direta e documental: retratos frontais com a plaqueta numerada visível, feitos durante campanhas de vacinação entre 1981 e 1983, sem o tratamento visual experimental de outras séries.




Publicar comentário