Foto de Iwo Jima: a história por trás da imagem
No fim de outubro de 2026, um homem entrou na base Quantico do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, na Virgínia, e atacou a marretadas uma réplica em calcário do Marine Corps War Memorial. Decapitou uma das figuras esculpidas e causou centenas de milhares de dólares em danos, segundo o jornal Stars and Stripes. A estátua reproduz, em pedra, uma cena que a fotografia já havia eternizado 81 anos antes: seis fuzileiros erguendo uma bandeira dos Estados Unidos no topo do Monte Suribachi, em Iwo Jima.
A imagem por trás da escultura é uma das mais reproduzidas da história da fotografia, e entender como ela foi feita, por que ela pegou e o que ela ainda ensina sobre composição e fotojornalismo explica por que uma estátua baseada nela ainda provoca essa reação quase um século depois.
Como foi feita a foto de Iwo Jima?
A foto foi feita na tarde de 23 de fevereiro de 1945 pelo fotógrafo Joe Rosenthal, da agência Associated Press (AP), que cobria o desembarque americano em Iwo Jima como correspondente de guerra. Rosenthal subiu o Monte Suribachi carregando sua câmera de médio formato e chegou ao topo bem a tempo de registrar o momento em que um grupo de fuzileiros erguia uma bandeira maior em substituição a uma primeira, menor, que já estava hasteada ali. A Associated Press já era, àquela altura, uma das maiores redes de fotojornalismo do mundo, a mesma tradição de agência que décadas depois formaria nomes como o fotógrafo Ian Berry, da Magnum Photos.
Segundo o site oficial do Prêmio Pulitzer, a AP só conseguiu transmitir a foto às redações associadas 17 horas e meia depois de feita, tempo suficiente para que ela chegasse a tempo de estampar a primeira página de boa parte dos jornais de domingo nos Estados Unidos. Rosenthal não teve tempo de verificar o enquadramento no visor antes de disparar: a cena durou poucos segundos, e ele fez a foto quase de improviso, ajustando a câmera na pressa de registrar o momento antes que a bandeira estivesse totalmente aberta.
Por que a bandeira da foto famosa não é a primeira hasteada na ilha?
A foto de Rosenthal registra a segunda vez que uma bandeira americana subiu o mastro em Suribachi naquele dia, não a primeira. Horas antes, outro grupo de fuzileiros já havia fincado uma bandeira pequena no topo do morro, e aquele primeiro momento também foi fotografado, por outro militar. O comando considerou a bandeira pequena demais para ser vista do pé da montanha e decidiu trocá-la por uma maior, o que gerou a segunda içada, a que Rosenthal fotografou.
Essa dualidade alimentou por décadas um mito, reforçado por quem via as duas fotos sem contexto, de que a imagem famosa seria uma reconstituição posada do primeiro momento. Não é esse o caso: as duas içadas aconteceram de fato, na sequência correta, e a segunda foi tão real e tão pouco ensaiada quanto a primeira. A diferença é que a segunda bandeira era maior, ficava mais visível contra o céu, e Rosenthal estava posicionado num ângulo mais baixo, o que empilhou as figuras dos fuzileiros numa diagonal que sobe da base ao topo do quadro, criando uma sensação de esforço coletivo que a primeira foto não tinha.
Quem são os seis homens retratados na foto de Iwo Jima?
Por décadas, o Corpo de Fuzileiros Navais identificou os seis homens da foto como o sargento Michael Strank, o cabo Harlon Block, o soldado Franklin Sousley, o soldado Ira Hayes, o soldado Rene Gagnon e o enfermeiro da Marinha John Bradley. Essa lista mudou duas vezes neste século, em correções anunciadas pelo próprio Corpo de Fuzileiros.
Em 2016, uma investigação histórica concluiu que o homem identificado havia décadas como John Bradley não aparece na foto: quem está naquela posição é o soldado Harold Schultz, que nunca reivindicou publicamente ter participado do momento. Em 17 de outubro de 2019, uma segunda correção, apoiada por peritos do FBI que analisaram pregas do capacete, a posição da gola da camisa e o jeito de carregar munição, trocou Rene Gagnon pelo cabo Harold Keller na posição do lado mais distante do mastro. O Corpo de Fuzileiros manteve o reconhecimento de Gagnon por ter carregado a bandeira grande até o topo, apenas sem aparecer na foto final.
Três dos seis homens morreram em combate em Iwo Jima nas semanas seguintes à foto. Strank e Block morreram no mesmo dia, 1º de março de 1945, atingidos por explosões de artilharia e morteiro enquanto avançavam no lado oeste da ilha. Sousley foi o último a cair, morto por um atirador japonês em 21 de março, poucos dias antes do fim da batalha. Hayes voltou para os Estados Unidos e morreu em 1955, aos 32 anos, por causas ligadas ao alcoolismo, agravado pelo peso de ter se tornado um símbolo nacional contra a própria vontade.
A foto de Iwo Jima foi encenada?
Não. A segunda içada de bandeira em Suribachi aconteceu de forma espontânea, como parte de uma troca de bandeiras decidida no momento, e Rosenthal fotografou o instante exato em que ela ocorria, sem direcionar poses. Isso distingue o caso de fotografias documentais genuinamente encenadas, como a foto de Dust Bowl de 1936, em que o próprio fotógrafo pediu que o personagem repetisse uma caminhada para a câmera.
O que alimenta a confusão é justamente o fato de existirem duas fotos de duas içadas reais no mesmo dia, e de a segunda, mais famosa, ter sido batida por um fotógrafo profissional, com melhor enquadramento, melhor luz e melhor composição do que a primeira, batida de forma mais improvisada. Rosenthal, inclusive, chegou a ser questionado depois se havia pedido para os fuzileiros posarem de novo para ele, e sempre negou. O prêmio Pulitzer concedido à imagem reconhece justamente isso: um instante real, capturado com o enquadramento certo no momento certo, sem montagem.
Por que essa foto ganhou o Pulitzer em tempo recorde?
O comitê do Pulitzer normalmente avalia trabalhos jornalísticos do ano anterior, mas abriu uma excepcionalidade para a foto de Rosenthal: ela recebeu o Pulitzer de Fotografia de 1945 pouco mais de dois meses depois de ter sido feita, ainda durante a guerra. Nenhuma outra foto havia sido premiada tão rapidamente até então.
A imagem também se tornou, antes mesmo do fim do conflito, peça central da campanha de venda de títulos de guerra (o 7th War Loan) e estampou um selo postal americano em 11 de julho de 1945, ainda em meio à Segunda Guerra Mundial. Poucas fotos no século 20 passaram, em tão pouco tempo, de registro jornalístico a símbolo oficial de Estado.
Por que a imagem virou um monumento de pedra?
A força visual da foto levou o escultor Felix de Weldon, que servia na Marinha americana na época, a reproduzi-la em três dimensões. Ele fez primeiro um modelo em escala reduzida e depois uma versão em tamanho real, usando como referência de rosto os sobreviventes que, na época, acreditava-se estarem na foto (Gagnon, Hayes e Bradley posaram pessoalmente para ele). O monumento, batizado de Marine Corps War Memorial, foi inaugurado em 10 de novembro de 1954 pelo presidente Dwight D. Eisenhower, data que marcava o 179º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, segundo o histórico oficial do National Park Service. Ele está erguido perto do Cemitério Nacional de Arlington, na Virgínia, não muito longe da réplica menor em calcário que foi vandalizada em Quantico em 2026.
É um caso raro de uma fotografia se tornar, literalmente, escultura pública oficial de um país, o que ajuda a explicar por que um ataque a uma réplica dela, mesmo pequena e fora do circuito turístico principal, repercute como ataque a um símbolo nacional, e não como simples vandalismo contra uma estátua qualquer.
O que a foto de Iwo Jima ensina sobre fotografia de guerra e composição?
A lição mais citada por historiadores da fotografia é a da composição em diagonal ascendente: os seis corpos formam uma linha que sobe da base para o topo do quadro, com a bandeira fechando a cena no ponto mais alto, criando a sensação de esforço físico coletivo puxando o olhar do observador para cima. Um fotógrafo de casamento usa o mesmo princípio ao posicionar os padrinhos em diagonal atrás do casal, em vez de alinhados horizontalmente: o olho segue a linha e chega primeiro ao ponto de maior interesse.
A segunda lição é sobre anonimato e tempo de resposta. Nenhum dos seis rostos é claramente visível na foto, o que, em vez de enfraquecer a imagem, a transformou em símbolo universal, qualquer soldado podia se ver ali. Quem pratica fotografia de rua busca esse mesmo efeito quando prefere fotografar as mãos e os gestos de um grupo em movimento a esperar um rosto de frente para a câmera, usando velocidades como 1/500 s ou mais rápidas para congelar o gesto sem borrar o quadro.
A terceira é sobre luz e hora do dia. Suribachi fica perto do litoral, e a luz rasante do fim da tarde sobre a fumaça e a poeira vulcânica deu à cena um contraste quase teatral entre as figuras escuras e o céu claro, parecido com o que um fotógrafo de paisagem busca na hora dourada ao fotografar silhuetas contra um céu aberto, o mesmo tipo de imagem simples que, décadas depois, tornaria a foto Bliss do Windows XP uma das paisagens mais vistas da história.
A quarta lição, mais dura, é sobre o papel do fotojornalista em zona de conflito: Rosenthal estava arriscando a vida ao lado dos fuzileiros, não observando de longe, o mesmo tipo de exposição ao risco que décadas depois marcaria a carreira de fotógrafas como Letizia Battaglia, que fotografou a máfia siciliana de dentro da própria cena de crime.
| Data | Fato |
|---|---|
| 23/02/1945 | Joe Rosenthal fotografa a segunda içada de bandeira no Monte Suribachi, Iwo Jima |
| 25/02/1945 | A foto chega às redações da AP e estampa jornais de domingo nos EUA |
| Maio de 1945 | A foto recebe o Prêmio Pulitzer de Fotografia, pouco mais de dois meses após ser feita |
| 11/07/1945 | A imagem estampa um selo postal americano, ainda durante a guerra |
| 10/11/1954 | Eisenhower inaugura o Marine Corps War Memorial, esculpido por Felix de Weldon |
| 2016 | O Corpo de Fuzileiros corrige a identidade de um dos seis homens: é Harold Schultz, não John Bradley |
| 17/10/2019 | Nova correção: Harold Keller substitui Rene Gagnon na lista dos seis homens da foto |
| Outubro de 2026 | Uma réplica em calcário do memorial é vandalizada com uma marreta em Quantico, Virgínia |
Nenhuma dessas lições depende de equipamento caro ou de sorte pura. O triângulo da exposição que Rosenthal dominava na prática, mesmo sem tempo para pensar nele conscientemente naquele instante, é o mesmo que qualquer fotógrafo iniciante aprende hoje antes de sair para fotografar um ensaio externo ou uma cena de rua: entender como abertura, velocidade do obturador e ISO se combinam é o que permite reagir em um segundo, sem perder a exposição nem o enquadramento, quando a cena não espera.
O episódio de 2026 em Quantico também serve de lembrete sobre outra camada da história dessa imagem: ela deixou de pertencer só a Rosenthal ou à AP no momento em que se tornou monumento público, e hoje carrega um peso simbólico que ultrapassa qualquer fotografia tirada antes ou depois dela sobre o mesmo conflito. É um destino raro para uma imagem de jornal, e talvez por isso continue sendo citada como referência sempre que se discute o que faz uma fotografia de guerra atravessar gerações: estar no lugar certo na hora certa importa, mas a composição, a luz e o instante exato em que o fotógrafo decide acionar o obturador importam tanto quanto.
Perguntas frequentes
A foto de Iwo Jima é a mesma do Memorial dos Fuzileiros Navais em Arlington?
Sim, o escultor Felix de Weldon usou a foto de Joe Rosenthal como referência direta para modelar o Marine Corps War Memorial, inaugurado em 1954 perto do Cemitério Nacional de Arlington, na Virgínia.
Quantas fotos foram feitas da içada de bandeira em Iwo Jima?
Pelo menos duas içadas de bandeira foram fotografadas naquele 23 de fevereiro de 1945: uma primeira, com uma bandeira menor, registrada por outro militar, e a segunda, mais famosa, fotografada por Joe Rosenthal com uma bandeira maior.
Por que a foto de Iwo Jima é considerada autêntica e não posada?
Porque a segunda içada de bandeira aconteceu de forma espontânea, decidida pelo comando militar para trocar uma bandeira pequena por uma maior, e Rosenthal fotografou o instante real da troca sem pedir poses aos fuzileiros.
Dá para aplicar a composição da foto de Iwo Jima em fotos do dia a dia com celular?
Sim, o princípio da diagonal ascendente funciona em qualquer câmera, inclusive no celular: posicionar os elementos principais de uma cena em linha crescente, da base para o topo do quadro, direciona o olhar do espectador e dá sensação de movimento à imagem.
Quem identificou os erros na lista de nomes dos seis homens da foto?
O próprio Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos conduziu as duas investigações, anunciando em 2016 a correção que trocou John Bradley por Harold Schultz, e em 17 de outubro de 2019 a correção que trocou Rene Gagnon por Harold Keller.
O que aconteceu com a réplica do memorial em 2026?
Em outubro de 2026, uma réplica em calcário do Marine Corps War Memorial na base de Quantico, na Virgínia, foi atacada com uma marreta, teve uma das figuras decapitada e sofreu centenas de milhares de dólares em danos, segundo o jornal Stars and Stripes.


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