Ian Berry: quem foi o fotógrafo da Magnum Photos

Silhueta de uma pessoa contra a luz forte de uma janela ao entardecer, com um rolo de filme fotográfico desenrolado em primeiro plano sobre uma mesa de madeira

21 de março de 1960. Em Sharpeville, no Transvaal sul-africano, a polícia abre fogo contra uma multidão desarmada que protestava contra as leis de segregação do apartheid. Outros jornalistas recebem ordem para sair da área e obedecem. Um fotógrafo fica. Ele se chama Ian Berry, tem 25 anos, carrega duas câmeras Leica, uma com lente grande angular e outra com lente normal, e é o único a registrar o que aconteceu ali. Décadas depois, as fotos que ele fez naquele dia seriam usadas em julgamento para provar a inocência das vítimas.

Berry morreu em 13 de setembro de 2026, aos 92 anos, segundo comunicado da Magnum Photos, agência da qual foi membro pleno desde 1967. Ele também está entre os fotógrafos documentaristas que, como Sebastião Salgado, usaram décadas de trabalho de campo para registrar crises humanas que a imprensa diária não tinha tempo de acompanhar. A diferença é que Berry fez isso sozinho, sem fama internacional parecida, em algumas das coberturas mais arriscadas do fotojornalismo do século 20.

Quem foi Ian Berry?

Ian Berry foi um fotojornalista britânico nascido em 4 de abril de 1934, em Preston, Lancashire, e um dos membros históricos da agência Magnum Photos. Em uma carreira de mais de 65 anos, cobriu o massacre de Sharpeville, a invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968, a fome na Etiópia, o conflito na Irlanda do Norte e décadas de vida na África do Sul durante o apartheid.

Ele aprendeu fotografia na prática, não em escola de fotografia. Ainda jovem, mudou-se para a África do Sul e passou um ano como assistente do fotógrafo Roger Madden, que havia trabalhado com o paisagista americano Ansel Adams. Foi Madden quem ensinou Berry os fundamentos técnicos usando uma câmera de grande formato, do tipo 4×5. Depois disso, Berry passou por redações sul-africanas até ser contratado pela revista Drum, dirigida pelo editor britânico Tom Hopkinson, onde aprofundou o entendimento sobre a política do apartheid que definiria boa parte de sua obra.

Como foi a cobertura do massacre de Sharpeville?

Ian Berry foi o único fotógrafo a registrar o massacre de Sharpeville, em 21 de março de 1960, quando a polícia sul-africana abriu fogo contra manifestantes desarmados, matando 69 pessoas e ferindo 180, a maioria atingida pelas costas enquanto fugia. Suas fotos acabaram usadas no julgamento como prova de que os manifestantes não representavam ameaça.

Em entrevista à Vice, Berry descreveu o momento em que a disparada começou: ele havia ido até a cerca que separava os manifestantes do composto policial, concluiu que a multidão parecia calma e voltou para o carro. Foi exatamente quando os tiros começaram. Ele se jogou no capim junto com outras pessoas e, quando os disparos pararam, era um dos poucos ainda de pé. Berry era o único branco não policial presente, o que tornou seu testemunho visual ainda mais decisivo no processo judicial posterior.

O episódio é hoje lembrado oficialmente: 21 de março é feriado na África do Sul em homenagem aos direitos humanos, em referência direta ao massacre. A data só tem esse peso histórico documentado porque alguém ficou fotografando enquanto todos os outros saíam.

Como ele conseguiu entrar em Praga durante a invasão soviética de 1968?

Berry entrou na Tchecoslováquia em agosto de 1968 inventando, no posto de fronteira, que ia a um congresso de arquitetura em Praga, e foi o único fotógrafo estrangeiro a documentar a chegada dos tanques soviéticos à capital. A mesma leitura rápida de cena e a mesma disposição para se aproximar do que está acontecendo, em vez de fotografar de longe, sustentam até hoje boa parte da fotografia de rua como gênero.

Quando a invasão começou, outros jornalistas já tinham sido impedidos de passar a fronteira. Berry, que tinha equipamento fotográfico escondido no banco de trás do carro alugado, disse ao oficial soviético que precisava chegar a um evento de arquitetos. Funcionou: foi o único liberado a entrar. Passou quatro dias fotografando as ruas de Praga, incluindo a cena de um tcheco tocando violino em frente a um tanque russo na praça Venceslau, e depois contrabandeou os rolos de filme para fora do país escondidos nas calotas e nos painéis de porta do próprio carro, um Volkswagen Fusca. As imagens, publicadas pela revista francesa Paris Match, foram um dos primeiros registros fotográficos da invasão a circular no Ocidente.

Qual foi o papel de Henri Cartier-Bresson na carreira dele na Magnum?

Henri Cartier-Bresson foi quem recomendou a entrada de Ian Berry na Magnum Photos, depois de ver as fotos do massacre de Sharpeville em 1962, em Paris. Berry se tornou membro pleno da agência em 1967. Essa trajetória também é parte da história da fotografia e de sua evolução no século 20, quando agências cooperativas como a Magnum passaram a definir padrões de edição e de ética para o fotojornalismo mundial.

O encontro inicial não foi fácil. Cartier-Bresson queria ver contatos, não cópias finais, porque isso revelava como o fotógrafo pensava durante a cena, não só o resultado escolhido depois. Berry contou, em entrevistas posteriores, que Cartier-Bresson disse não gostar do que viu em um primeiro momento, só para depois convidá-lo a se juntar à agência. Um conselho de Cartier-Bresson acompanhou Berry pelo resto da carreira: se você fizer uma boa fotografia por ano, já é muito.

Vale diferenciar duas coisas que às vezes se confundem: fotojornalismo e ensaio documental de longo prazo. Sharpeville e Praga são fotojornalismo no sentido estrito, cobertura de um fato urgente, com janela curta para captar a cena e divulgar. Já o livro The English, que Berry produziu ao longo da década de 1970 sobre a identidade britânica, é ensaio documental: um projeto de autor, construído por anos, sem prazo de fechamento de jornal.

Que equipamento Ian Berry usava, e o que isso ensina sobre fotografar em situações de risco?

Em Sharpeville, Berry carregava apenas duas câmeras Leica, uma com lente grande angular e outra com lente normal. Décadas antes do zoom estabilizado e do autofoco, essa era a configuração usual de quem precisava se mover rápido, sem trocar de lente no meio da cena. Essas câmeras eram, na época, concorrentes diretas de modelos como a Zeiss Ikon, que também disputava o mercado de câmeras compactas de alta precisão.

A lição prática não é sobre a marca da câmera, e sim sobre a decisão de carregar pouco. Em uma cobertura de risco, cada minuto trocando lente ou ajustando bolsa é um minuto fora da cena. Berry resumiu essa filosofia décadas depois, em entrevista à revista Wex Photo: “Fotografia é um milésimo de segundo de excitação e horas de tédio. Mas vale a pena. Eu não faria outra coisa.”

Essa mesma lógica de equipamento mínimo aparece em outro momento central da obra de Berry: o retrato que fez do físico Stephen Hawking, da mulher dele e da filha, em casa, em Cambridge, em 1977. É um retrato em ambiente interno, sem produção, sem iluminação montada, apenas a câmera e a disposição de estar lá no momento certo. A mesma abordagem reaparece nas paisagens de geleiras da Groenlândia que ele fotografou já com mais de 80 anos, para o projeto de longo prazo sobre mudança climática que resultaria no livro Water, publicado em 2023.

Que lição prática o percurso de Berry deixa para quem fotografa hoje?

A lição central do percurso de Ian Berry é que acesso importa mais do que equipamento: ele chegou a cenas decisivas da história porque ficou quando outros saíram, e porque preparou uma forma de entrar quando a entrada parecia fechada. Isso vale tanto para fotojornalismo de conflito quanto para qualquer cobertura em que a cena não espera o fotógrafo se organizar.

A segunda lição é sobre constância sem pressa. Berry trabalhou por mais de 65 anos sem parar de fotografar e, cinco anos antes de morrer, ao ser perguntado qual era sua foto favorita, respondeu que sempre esperava que fosse a próxima, a que ainda ia fazer. Não existe fórmula definitiva: existe repetição, sem perder a curiosidade pelo que está na frente da lente.

Ele não foi o único fotógrafo da sua geração a transformar testemunho visual em documento histórico. Claudia Andújar, que documentou os Yanomami, seguiu um caminho parecido: usar a câmera onde a imprensa comum não queria, ou não conseguia, chegar. É nesse grupo que o trabalho de Ian Berry se encaixa.

Linha do tempo: os momentos decisivos da carreira de Ian Berry

Ano Evento Local Por que importa para fotógrafos hoje
1960 Massacre de Sharpeville Transvaal, África do Sul Único registro fotográfico do evento, usado como prova em julgamento
1962-1967 Convite de Cartier-Bresson e ingresso na Magnum Paris, França Mostra como a qualidade do olhar, não só o acesso à cena, define a entrada em uma agência de referência
1968 Invasão soviética da Tchecoslováquia Praga Acesso conquistado por preparo e argumento, não por sorte
1972-1978 Produção do livro The English Reino Unido Exemplo de ensaio documental de longo prazo, sem urgência de fechamento
1988 e 1996 Livros Black and Whites e Living Apart África do Sul Registro do apartheid ao longo de décadas, não só no momento de maior tensão
2023 Publicação do projeto Water Vários países Trabalho de campo de longo prazo iniciado já depois dos 80 anos de idade

Perguntas frequentes

Qual foi a foto mais importante de Ian Berry?

A cobertura do massacre de Sharpeville, em 21 de março de 1960, é considerada o trabalho mais importante de Ian Berry, porque ele foi o único fotógrafo presente e suas imagens serviram de prova em julgamento sobre o episódio.

Por que Henri Cartier-Bresson convidou Ian Berry para a Magnum Photos?

Cartier-Bresson viu as fotos de Berry sobre o massacre de Sharpeville em 1962, em Paris, e recomendou sua entrada na agência. Berry se tornaria membro pleno da Magnum cinco anos depois, em 1967.

Dá para fazer fotojornalismo hoje carregando pouco equipamento, como Berry fazia com duas Leicas?

Dá, e a lógica é a mesma: menos equipamento significa menos tempo perdido trocando lente ou ajustando mochila no meio de uma cena que muda rápido. Hoje isso pode ser um corpo de câmera com uma lente versátil, ou mesmo um celular, dependendo da cobertura.

Qual a diferença entre o trabalho de fotojornalismo de Berry e um ensaio documental de longo prazo como “The English”?

Fotojornalismo cobre um fato com urgência e janela curta de tempo, como Sharpeville e a invasão de Praga. Ensaio documental de longo prazo, como The English ou o projeto Water, é construído ao longo de anos, sem prazo de fechamento, a partir de um olhar de autor sobre um tema.

Quais livros de Ian Berry valem a pena conhecer?

The English (1978), sobre a identidade britânica; Black and Whites: L’Afrique du Sud (1988) e Living Apart (1996), sobre o apartheid na África do Sul; e Water (2023), sobre o papel da água na vida ao redor do mundo, são os mais citados de sua obra.

Ian Berry e Henri Cartier-Bresson fotografavam do mesmo jeito?

Não necessariamente. Cartier-Bresson é associado à ideia do instante decisivo em cenas do cotidiano. Berry aplicou uma lógica parecida de atenção ao momento certo, mas boa parte da obra dele nasceu de contextos de conflito e crise política, o que exigia também acesso físico ao lugar, não só sensibilidade para o enquadramento.

Outra fotógrafa que seguiu padrão parecido foi Letizia Battaglia, que fotografou a máfia na Sicília por décadas, muitas vezes sob ameaça direta. O fio comum entre essas trajetórias, incluindo a de Berry, é a disposição de ficar fotografando no momento em que a maioria das pessoas, com razão, quer sair correndo.

O legado de Ian Berry, descrito em detalhe no obituário publicado pela Magnum Photos, não está em uma técnica nova ou em um equipamento específico. Está no padrão que ele deixou: entrar onde outros desistem de entrar, e manter a câmera funcionando mesmo quando a cena é desconfortável de olhar. Para quem fotografa hoje, seja cobrindo um protesto, um casamento ou uma paisagem, a pergunta que sobra do trabalho dele é simples. Você ficaria, ou sairia com os outros?

Apaixonado por fotografia e arte. Escrevo no Mundo das Fotos sobre o que se aprende errando: luz, lente, composição e as decisões que mudam a foto antes de apertar o botão. Se você está saindo da automática, é para você que eu escrevo.

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