Zeiss Ikon: a câmera alemã rival da Leica
Você compra um adaptador barato para encaixar uma lente antiga na sua câmera mirrorless e repara em uma marcação gravada na rosca de metal: M42. Essa rosca de 42 mm tem quase oito décadas e nasceu dentro de uma disputa comercial muito concreta entre duas fabricantes alemãs, Zeiss Ikon e Leica, que mudou os rumos da câmera fotográfica que você provavelmente usa até hoje. Entender essa disputa ajuda a explicar por que certas lentes antigas se adaptam tão bem a câmeras atuais, por que o visor de uma DSLR funciona como funciona e por que a palavra Contax ainda aparece em corpos e lentes usados. Esse episódio específico faz parte de um capítulo bem documentado dentro da história da fotografia, e vale a pena conhecer com detalhe.
Como a Zeiss Ikon nasceu para enfrentar a Leica?
A Zeiss Ikon foi formada em 15 de setembro de 1926, em Dresden, pela fusão de quatro fabricantes de câmeras (Contessa-Nettel, Ernemann, Goerz e Ica) com aporte de capital da Carl Zeiss, empresa que já fabricava lentes de precisão desde 1846. A nova companhia nascia com um catálogo enorme (câmeras de caixa, dobráveis de filme e chapa, reflex de médio e grande formato), mas sem nenhum modelo de 35 mm, justamente quando a Leitz havia lançado a Leica I, em 1925, e começava a mostrar que o filme de cinema adaptado para fotografia tinha futuro comercial.
Em 1929, a Zeiss enviou o engenheiro Heinz Kuppenbender a Dresden com uma missão direta: organizar a linha de produtos e desenvolver uma câmera de 35 mm capaz de competir com a Leica. O resultado chegou às lojas em 1932 com o nome Contax, uma câmera de 35 mm com telêmetro (sistema óptico que mede a distância até o assunto e permite focar com precisão olhando pelo visor) que entrou direto na disputa pelo bolso do fotógrafo amador e profissional da época.
O que diferenciava a Contax da Leica?
A Contax I usava um obturador metálico de plano focal, com velocidades de 1/25 s a 1/1.000 s, mais rápido do que o obturador de pano da Leica daquele período, e uma montagem de lente por baioneta, que trocava lentes de forma mais rápida do que a rosca usada pela concorrente. A diferença técnica era real, mas a disputa também empurrou as duas empresas para a frente: a Leitz respondeu desenvolvendo seu próprio telêmetro acoplado e novas lentes.
Em 1936 chegou a Contax II, com o telêmetro acoplado embutido na mesma janela do visor e velocidades de obturador que iam de 1/2 s a 1/1.250 s, um intervalo amplo para a época, útil tanto para cenas escuras quanto para congelar movimento rápido em exteriores. Entender como essas peças se encaixam fica mais fácil revisando as lentes fotográficas essenciais que ainda seguem a mesma lógica de encaixe físico entre corpo e lente, só que atualizada para sistemas eletrônicos.
Por que a Segunda Guerra Mundial dividiu a Zeiss Ikon em três?
A fábrica da Zeiss Ikon ficava em Dresden, cidade bombardeada pelas forças britânicas e americanas em fevereiro de 1945, em um ataque que lançou milhares de toneladas de bombas sobre a região e destruiu parte expressiva da capacidade industrial e dos registros da empresa. Com o fim da guerra na Europa, em maio de 1945, Dresden ficou sob controle soviético, e a companhia foi dividida.
O Exército Soviético levou os projetos e ferramentas da Contax II e III para Kiev, onde as câmeras passaram a ser copiadas sob a marca Kiev como reparação de guerra. Nos Estados Unidos, parte da estrutura foi realocada para Stuttgart, na zona ocidental, dando origem à Zeiss Ikon que continuou produzindo câmeras de telêmetro e, depois, reflex. Na Alemanha Oriental, a fábrica de Dresden foi nacionalizada em 1948 e, por causa de uma disputa judicial pelo nome Zeiss Ikon com a empresa ocidental, foi renomeada VEB Kinowerke Dresden em 1958, tornando-se depois o núcleo do grande conglomerado estatal Pentacon, segundo o levantamento histórico publicado pela Amateur Photographer. Uma mesma marca, três destinos completamente diferentes, todos decididos por fronteiras políticas e não por decisão de engenharia.
Como nasceu a rosca M42 que ainda aparece em lentes antigas?
A rosca M42 nasceu em 1948, dentro da Contax S, a primeira câmera reflex (SLR) com pentaprisma de visada ao nível dos olhos. O pentaprisma é o bloco de vidro dentro do visor que redireciona a imagem formada pela lente para que o fotógrafo veja a cena do jeito certo, sem espelhamento nem inversão, uma peça que se tornou padrão em praticamente toda câmera reflex depois disso, incluindo a câmera DSLR que muita gente ainda usa hoje.
A Contax S usava uma montagem de lente com rosca de 42 mm. Por causa da disputa de nome entre as duas empresas chamadas Zeiss Ikon, a câmera teve que deixar de usar o nome Contax no mercado ocidental e passou a ser vendida como Pentacon. A rosca de 42 mm, porém, sobreviveu ao nome: ficou conhecida mundialmente como M42 e foi adotada por décadas por fabricantes como Praktica e, mais tarde, pela Asahi Pentax, o que explica por que ainda hoje aparecem tantas lentes antigas de rosca M42 em bancas de usados. Quem quiser conferir a árvore genealógica completa da marca encontra um bom resumo no camera-wiki.org, mantido por colecionadores e pesquisadores de câmeras antigas.
Quando e por que a Zeiss Ikon parou de fabricar câmeras?
A Zeiss Ikon ocidental lançou ainda a Contaflex (a primeira SLR de 35 mm com obturador central, em 1953) e a Contarex (1959, apelidada Bullseye por causa do grande exposímetro redondo acoplado), mas o fôlego comercial foi encolhendo ao longo dos anos 1960. Em 1971 chegaram a Contessa 310 e a S312, últimas câmeras lançadas pela marca, e em 1972 a Zeiss Ikon encerrou de vez a fabricação de câmeras fotográficas.
O nome Contax não morreu junto com a fábrica. A Carl Zeiss fechou parceria com a japonesa Yashica, que passou a fabricar os corpos enquanto a Zeiss fornecia as lentes, e lançou a linha Contax RTS (Real Time System) com design assinado pela Porsche Design Group e obturador eletromagnético. Em 1983, a Kyocera comprou a Yashica e seguiu produzindo a linha até o início dos anos 2000. Em 2004, a Carl Zeiss ainda apresentou no Photokina uma nova câmera de telêmetro batizada Zeiss Ikon, com encaixe de lente Leica M, fabricada no Japão pela Cosina: prova de que o nome continuou tendo valor comercial mesmo décadas depois do fim da fábrica original.
Vale a pena adaptar uma lente antiga de rosca M42 em uma câmera mirrorless hoje?
Sim, dá certo na maioria dos casos, porque as câmeras mirrorless têm a distância entre a montagem e o sensor (distância de flange) bem menor do que as DSLRs e as SLRs antigas, o que permite encaixar um adaptador simples, sem lentes corretoras, entre a rosca M42 e praticamente qualquer sistema atual, como Sony E, Fujifilm X, Micro Four Thirds, Canon RF ou Nikon Z.
O que muda na prática: o foco passa a ser manual, já que essas lentes antigas não têm contato elétrico com o corpo, e o controle de abertura (o diafragma que regula a quantidade de luz que entra na lente, medido em valores como f/2.8 ou f/8) fica no próprio anel da lente, não no corpo da câmera. Para retrato em ambiente interno ou still life de mesa, onde dá tempo de focar com calma, o resultado costuma valer o esforço, sobretudo pelo caráter óptico diferente que muitas dessas lentes antigas produzem no bokeh, o efeito de fundo desfocado atrás do assunto. Já para fotografia de rua rápida ou cobertura de casamento, em que o foco automático faz diferença real, uma lente antiga de rosca M42 tende a frustrar mais do que ajudar. Antes de comprar uma lente usada, vale examinar o vidro contra a luz, em busca de fungo ou embaçamento interno, e entender como o tamanho do sensor da sua câmera, cropado ou full frame, muda o ângulo de visão final daquela distância focal antiga.
Linha do tempo: da Contax à Contax RTS
- Leica I (1925): câmera de 35 mm com telêmetro da Leitz, referência que a Zeiss Ikon decidiu enfrentar diretamente.
- Contax I (1932): primeira resposta da Zeiss Ikon, obturador metálico de plano focal, velocidades de 1/25 s a 1/1.000 s.
- Contax II (1936): telêmetro acoplado na janela do visor, velocidades de 1/2 s a 1/1.250 s.
- Contax S (1948): primeira SLR com pentaprisma de visada ao nível dos olhos, rosca de lente de 42 mm, origem da futura M42.
- Contax RTS (1975): parceria com a Yashica, design da Porsche Design Group, obturador eletromagnético.
O que a disputa entre Zeiss Ikon e Leica ainda ensina sobre equipamento fotográfico?
A rivalidade mostra algo que continua valendo: concorrência entre fabricantes tende a acelerar mudanças técnicas que o fotógrafo sente na mão, da velocidade do obturador ao formato do visor. Vale lembrar que a pergunta sobre quem inventou a câmera fotográfica tem uma resposta ainda mais antiga, mas é no mesmo terreno de disputa comercial entre fabricantes que a Contax nasceu quase um século depois.
Do mesmo jeito que acessórios como o ColorChecker completou cinco décadas de uso contínuo em estúdio, a rosca M42 da Contax S segue viva em adaptadores vendidos até hoje, décadas depois de a fábrica original ter fechado as portas. Quem pegar uma lente antiga de rosca M42 numa feira de usados está literalmente com um pedaço dessa disputa de 1948 nas mãos, e agora sabe de onde ela veio.
Perguntas frequentes
O que foi a Zeiss Ikon?
A Zeiss Ikon foi uma fabricante alemã de câmeras formada em 1926, em Dresden, pela fusão de quatro empresas (Contessa-Nettel, Ernemann, Goerz e Ica) com capital da Carl Zeiss. Produziu câmeras de telêmetro e reflex, entre elas a linha Contax, até encerrar a fabricação própria em 1972.
Contax e Leica são a mesma câmera?
Não. São marcas concorrentes criadas por empresas diferentes: a Leica pela Leitz, lançada em 1925, e a Contax pela Zeiss Ikon, lançada em 1932 justamente para competir com a Leica. As duas usavam telêmetro, mas com obturadores, montagens de lente e velocidades diferentes.
O que é a rosca M42?
É uma montagem de lente com encaixe de parafuso de 42 mm de diâmetro, criada para a Contax S em 1948 e depois adotada por fabricantes como Praktica e Asahi Pentax, o que a tornou um dos padrões de lente mais usados do século 20.
Dá para usar uma lente M42 em uma câmera mirrorless atual?
Dá, com um adaptador mecânico simples, porque a distância entre a montagem e o sensor das mirrorless é menor do que a das SLRs antigas. O foco e a abertura ficam manuais, sem comunicação eletrônica entre lente e corpo.
Quem projetou a primeira Contax?
O engenheiro Heinz Kuppenbender, enviado pela Carl Zeiss Jena a Dresden em 1929 com a missão de criar uma câmera de 35 mm capaz de competir com a Leica, projeto que resultou na Contax I, lançada em 1932.
Por que a Zeiss Ikon deixou de existir?
A empresa ocidental encerrou a fabricação de câmeras em 1972, depois de décadas perdendo espaço de mercado para a Leica e para fabricantes japonesas. O nome Contax sobreviveu por mais tempo graças a uma parceria entre a Carl Zeiss e a japonesa Yashica, depois comprada pela Kyocera.



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